MARIA DOLORES CONVERSA COM A BAHIA INTELECTUAL

 

Margarete de Carvalho - UFBA

Ivia Alves - UFBA

 

 

Com o presente trabalho venho expor a repercussão da voz ativa de Maria Dolores, pseudônimo de uma escritora baiana, jornalista e diretora da “Página feminina” do jornal O Imparcial, no qual institui um questionário "Enquetes Literárias" sobre a situação do modernismo, entregue a intelectuais locais e que pelas poucas respostas recebidas e estampadas no jornal denuncia o marasmo literário baiano na década de trinta.

Maria Dolores é mais uma das escritora baianas deixadas à margem do cânone literário, que por ser mulher teve o descrédito de uma sociedade refratária tanto no âmbito social quanto no âmbito literário. Na realidade, mesmo nos anos trinta, percebe-se que não passa pelo imaginário local uma relação igualitária dos gêneros.

Maria Dolores por ousar interferir na cena literária com suas "Enquetes..." sofreu a mais severa crítica, baseada, simplesmente, numa teoria biológica da diferenciação dos sexos o que fez com que o seu trabalho por mais valoroso que tivesse sido, fosse deixado à margem. Ela tentou interferir, dizer algo, numa época em que não era permitido às mulheres terem a palavra a não ser que esta lhes fosse dirigida.

Interessada em literatura e muito questionadora, Maria Dolores, em 1931, irá abrir a discussão sobre a literatura e cultura local através dessa “Enquete Literária”. Esta contava de questões referentes ao movimento literário na Bahia e foram publicadas com o título de “Bahia Intelectual”. A cada resposta publicada ela fazia um breve comentário, coordenando assim os depoimentos. Pelo jornal sabe-se que foram enviadas cem cópias do inquérito e no decorrer de três meses, que foi a duração das Enquetes Literárias, apenas dezoito foram respondidas.

Maria Dolores mostra-se clara no seu objetivo ao promover o questionário, pois pretendia movimentar a intelectualidade baiana, que se encontrava diante de um cenário cultural confuso e parado enquanto várias outras cidades do país já estavam em pleno movimento modernista. Ela afronta a pacatez baiana e convoca os baianos a se desprenderem do indiferentismo. Ela critica a comunidade intelectual por ainda permanecer conservadora e arraigada a preconceitos, e clama por mudanças:

 

A literatura, toda a arte, enfim, é como uma colacolorida, onde é preciso que dance a cada instante a música nova de novo raio de sol. Necessita que, a cada manhã lhe banha coroar as pétalas a alegria do orvalho, do sereno sempre novo. Os novos, na arte, desempenham o papel deste sol continuador, deste sol sempre jovem. Nega-lo, oculta-lo, importa no desaparecimento, na aniquilação da flor.(...) É preciso um pouco de alvorada em toda a arte. No entanto, o erudito acadêmico passou ao largo neste julgamento.[1]

 

Todos os depoimento colhidos por Maria Dolores constataram o ambiente em que a Bahia estava inserida, a impossibilidade da Bahia de acompanhar o desenvolvimento cultural e literário dos estado do Sul, fosse por falta de editoras, fosse pela mentalidade agrária-escravocrata que ainda era predominante, fosse pelo analfabetismo ou pela falha de revista que animassem a cena literária como foi o caso da revista Arco e Flexa e Samba entre os anos de 1928 a 1930.

Maria Dolores receou, inicialmente, que a sua idéia fracassasse, pois considerava a Bahia totalmente arredia às letras mas ainda assim ela permaneceu com sua intenção por considerar que seria um registro histórico da época, como ela mesma explicita através de seu comentário ao final da resposta de Carlos Chiacchio: “Será mais uma fonte de ouro onde os vindouros virão abeberar-se para a nossa história literária”[2].

Também comenta na introdução da resposta de Harmindo Marques:

 

Idealizei a realização de uma “enquete literária”. Animou-me uma secreta veleidade de que a minha idéia teria boa acolhida. E só por isto mandei, do meu próprio punho, um apelo aos “consagrados” para que me ajudassem a sacudir esse pó de indiferença e de desamor pelas coisas de arte.[3]

 

Nem todos os intelectuais quiseram colaborar e deixar registrada sua opinião. Fosse por descredito a uma jornalista mulher, fosse por puro desconhecimento do que se passava nos meio literários, além dos intelectuais não responderem imediatamente, a grande maioria suprimiu informações, concorrendo para que a entrevistadora demonstrasse sua indignação pelo descaso e a falta de coragem da intelectualidade  baiana em se expor. Como ela própria comenta tal atitude:

 

Confesso que estou revoltada com os valores intelectuais desta terra. (...).

(perdoem-me os compatrícios atingidos pela minha acusação ) se o valor dos homens de letras da Bahia é um fato incontestável, a covardia, no ponto de vista em questão, não deixa também de sê-lo. Porque eles tem medo. Receio de melindrar o amor próprio e a vaidade dos outros. E se põe a brincar de cabra cega. Respondendo com evasivas.... Açucarando opiniões. Velando ironias... Outros não respondem. A coragem não lhes chega, sequer, para dissimular o que queriam dizer, nem mesmo num estilo bom - bom de chocolate. [4]

 

Analisando a correspondência entre os intelectuais e Maria Dolores, a colaboradora da Página, Martha Olivar, se torna a peça chave para revelar as discussões e repercussões marginais que a "Enquete" suscitou na vida da Bahia literária da época. A falta de aceitação por parte dos intelectuais em presenciar uma mulher discutindo ativamente sobre literatura, principalmente de igual para igual, e questionando-os traz uma reação de repulsa contra Maria Dolores.

Martha Olivar acompanhou a idéia de Maria Dolores desde o início quando, ela ainda idealizava com muito otimismo e efervescência junto com amigos e com o diretor do Jornal, a efervescência de todo esse entusiasmo ao se deparar com o atraso baiano e com a hostilidade de alguns intelectuais em responder ao inquérito e irá também registrar a repulsa.

Em uma de suas crônicas, Martha Olivar anexa uma carta de Otto Bittencourt Sobrinho, crônista e escritor da época, contendo uma das mais severas críticas a Maria Dolores. Ele inicia a sua carta revelando a total falta de confiança nela, subestimando a capacidade dela de coordenar um debate literário:

 

De muito eu ansiava por um inquérito como o seu. queria-o porém, organizado por alguém que pudesse assumir a responsabilidade do seu preparo, que possuísse o valor necessário para encabeça-lo.[5] (grifos meus)

 

Ainda nessa carta Otto Bittencourt comenta sobre uma discussão que tivera sobre Maria Dolores com alguns colegas do meio literário, sendo que o primeiro ponto discutido foi a identidade da autora, que para eles a aparição dessa poetiza foi assombrosa. Aparentemente eles não acreditavam ser uma mulher com tal ousadia de inquiri escritores naquele momento. Apenas quem a conhecia pela publicação de suas poesias através do jornal, um dos poucos meios que as mulheres possuíam para publicar poesias, é que se assustou somente com as perguntas, pois tamanha era a dificuldade de responde-lás, já que estavam na Bahia.

Mais incomum ainda para a época foi presenciar uma mulher que escrevia versos com temas que transgrediam muito além do que era permitido para as mulheres da época. Ela, além de poetar escrevia poemas sobre sua subjetividade e sobre o amor.

Carlos Ribeiro em sua resposta à enquete faz um pequeno comentário sobre alguns dos poemas de Maria Dolores, e se mostra surpreso como podemos observar:

 

Quem produz CÂNTICO SERTANEJO, RESIGNAÇÃO, e tantos versos outros de audaz inspiração, para um peito de mulher, se democratiza na sociedade espiritual. E a admiração entusiástica rasga os protocolos. E esse último SONHO IMPOSSÍVEL? è melhor calar... O ambiente é de acentuado pudorismo espioneiro e malicioso” [6]

 

O contexto sócio-cultural baiano é inóspito tanto para o movimento modernista quanto para a mulher que desejasse escrever. Ramayna de Chevalier em sua resposta nos atenta para esse fato. Observe-se o tratamento dado a uma intelectual:

 

e depois, minha adorável poetiza, uma terra onde se deprecia, um espirito sutilissimo, encantador como o seu, onde se combate uma iniciativa nobre de uma moça de talento como Edith Abreu, não estimula os grandes rasgos, nem afagas esperanças...Depois você é mulher diferentissima das outras (grifos meus)[7]

 

Em uma das perguntas do inquérito, Maria Dolores pedia que se listassem nomes dentre os poetas baianos que pudessem ser citados como escritores atuantes na época. Poucas vezes o nome dela foi citado quando isso acontecia era feito, muitas vezes, com restrições, mais por não admitir a presença de uma mulher nos meios literário do que por desconhecê-la, como se pode verificar a resposta de Pinto de Carvalho:

 

Abro aqui curto parêntesis para dizer que fora pouco gentil de minha parte se, cuidando de literatos e poetas, trouxesse à balha o nome da escritora que me questiona; se o fizesse, daria ao louvor ares inconvenientes e ridículos de sermão encomendado, que de modo algum nem lhe agradaria, a ela, nem me contentaria, a mim.[8]

 

Tratada desde Mariazinha a V.Ex.a, apelidada de “A MAQUINA DE CARLOS CHIACCHIO”, pois achavam que ela era impulsionada e guiada pelo crítico do jornal A Tarde, Carlos Chiacchio, pelo simples fato de concordar com a sua teoria o “Tradicionalismo Dinâmico”, proposto e defendido por ele na revista “Arco e Flexa”, chegaram mesma a considerar o nome de Maria Dolores, um pseudônimo do próprio Carlos Chiacchio. Afinal de contas, dentro da concepção de mundo desses intelectuais, que opinião poderia ter para eles uma mulher, já que sempre foram eles que detiveram o poder de conservar ou de transformar a literatura local?

Tais opiniões circulavam nas entrevistas ou nas rodas da vida cultural da cidade, levando Martha Olivar a defendê-la: “Chamam-na até de “Máquina” movimentada pelo Dr. Carlos Chiacchio, pessoas a quem ela, assegurou-o, nunca o ouviu, nem mesmo através dos fios telefônicos”[9].

Diante do meio inóspito às mulheres atuarem como intelectuais, Maria Dolores tenta alertar a todos com sua brilhante idéia, tão brilhante que duvidaram ter sido uma mulher a realizá-la.

Os intelectuais da época, junto com toda a sociedade, não poderiam aceitar uma mulher no meio público influenciando, pois, corria aboca pequena que se quisesse falar em público que fosse na igreja, lugar mais recomendado para uma mulher após o reinado do lar.

Em 1932, Martha Olivar escreve uma outra crônica sobre a Ënquete Literária, desta vez ela analisa a critica do Sr Souza Aguiar publicada no Jornal da Bahia, que sugere a Maria Dolores a abandonar a idéia de promover Enquetes e as chama de extemporâneas. Martha Olivar, concordando que realmente as enquetes já tinha sido apagadas da memórias dos baianos, não deixa de apontar a importância que elas tiveram tanto para que se pudesse conhecer os homens de opiniões, e registrá-las como também registrou-se que mulheres vivênciam ideologia que as desqualificam como frágeis e bobas. E Olivar comenta:

 

O inquerito fe-la provar do carinho da decepção, ofereceu-lhe outra parte, duas grandes compensações, que foram: conhecer os homens que na Bahia se destinguem pelo destemor das opiniões desapaixonadas(...), e mostrar a essa terra que, apesar de pertencer ao sexo que os homens erroneamente chamaram de fraco, ela colocou-se a altura que não puderam atingir o fraquejar dos tímidos e a covardia dos que ferem na treva.[10]

 

Maria Dolores, de acordo com Martha Olivar, não deixou-se afetar pelos que tentaram desqualificá-la, ao contrário, isso a encorajou ainda mais a transformar o seu meio e declarou-se persistente.

 

Alçou-se Maria Dolores de modo a não ver os olhares de despeito e ironia daqueles que se sentiram confundidos e esmagados pela sua indiferença aos seus ataques covardes. A versejadora baiana nada teme. Murmuram? Paciência têm que se acostuma.[11]

 

Maria Dolores foi mais uma das mulheres que a sociedade predominantemente masculina tentava abafar com críticas mal formuladas e apenas com o intuito de afastá-la do meio público. Mas desconstruindo a idéia de que seu sexo a limitava, ela persiste e mostra o contrário: “A Bahia é rica de cérebros femininos capazes de assombrosas revelações. Carecem eles, apenas, de estimulantes.”[12]

Essas palavras de Martha Olivar comprovam que havia, na época, um certo número de escritoras trabalhando na literatura; por outro lado, o comentário lateral das "Enquetes" dão conta das dificuldades que essas escritoras se defrontavam com o meio, e se de alguma forma, quisessem estrapolar as normas para elas estipuladas, a desqualificação e o escárnio dos letrados fazia com que elas desistissem do combate desigual. Felizmente, Maria Dolores e Martha Olivar registraram suas dificuldades e hoje podemos resgatar mais um documento que evidencia o tratamento dado à mulher na cidade de Salvador, nas décadas de trinta, em plena luta em favor do voto feminino.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

AEBISCHER, V. FOREL, C. Falas masculinas, falas femininas? In:_____. Sexos e linguagem. São Paulos, Editora Brasiliense, 1991.

ALVES, Lizir Arcanjo. Mulheres escritoras na Bahia; as poetisas 1822-1918. Salvador, Editora Etera 1999.

ALVES, Ivia. Arco & Flexa; Contribuição para o estudo do modernismo. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978.

BRITO, Raimundo. Bahia Intelectual. O Imparcial. Salvador, 27 de outubro de 1931.]

CHIACCHIO, Carlos. Bahia Intelectual. O Imparcial. Salvador, 02 de setembro de 1931.

CARVALHO, Pinto de. Bahia Intelectual. O Imparcial. Salvador, 29 de setembro de 1931.

CARVALHO, Filho. Bahia Intelectual. O Imparcial. Salvador, 02 de outubro de 1931.

CHEVALIER, Ramayana de. Bahia Intelectual. O Imparcial. Salvador, 6 de novembro de 1931.

DUARTE, Nestor. Bahia Intelectual. O Imparcial. Salvador, 25 de setembro de 1931.


FILHO, Godofredo. Bahia Intelectual. O Imparcial. Salvador, 09 de outubro de 1931.

GOMES, João Carlos Texeira. Camões contestador e outros ensaios. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1979.

CHEVALLIER, Carlyle. Bahia Intelectual. O Imparcial. Salvador, 3 de novembro de 1931.

LEITE, Cristina Larroudé de Paula. Mulheres, muito além do teto de vidro. São Paulo, Editora Atlas, 1994.

MILHOMENS, Jonatas. Bahia Intelectual. O Imparcial. Salvador, 15 de setembro de 1931.

MARQUES, Chavier. Bahia Intelectual. O Imparcial. Salvador, 8 de setembro de 1931.

MARQUES, Armindo. Bahia Intelectual. O Imparcial. Salvador, 22 de setembro de 1931.

REQUIÃO, Altamirando. Bahia Intelectual. O Imparcial. Salvador, 20 de outubro de 1931.

RIBEIRO, Carlos. Bahia Intelectual. O Imparcial., Salvador, 06 de outubro de 1931.

RIBEIRO, Egberto de Campos. Bahia Intelectual. O Imparcial. Salvador, 13 de outubro de 1931.

SIMÕES, Hélio. Bahia Intelectual. O Imparcial. Salvador, 16 de outubro de 1931.

SPINOLA, Lafayette. Bahia Intelectual. O Imparcial. Salvador, 18 de setembro de 1931

SPINOLA, Rafael. Bahia Intelectual. O Imparcial. Salvador, 30 de outubro de 1931.

SILVA, Moreira da. Bahia Intelectual. O Imparcial. Salvador 23 de outubro de 1931.



[1] Dolores MARIA. Bahia Intelectual. O Imparcial, Salvador, 8 de setembro de 1931.

[2] Id. Bahia Intelectual. O Imparcial, Salvador, 4 de setembro de 1931.

[3] Id. Bahia Intelectual. O Imparcial, Salvador, 22 de setembro de 1931.

[4] Id. Bahia Intelectual. O Imparcial, Salvador, 22 de setembro de 1931.

[5] Martha OLIVAR. Em torno da Enquete Literária. Salvador, 22 de outubro de 1931.

6. Carlos RIBEIRO. Bahia Intelectual. O Imparcial. Salvador, 9 de outubro de 1931.

[7] Ramayana de CHEVALIER. Bahia Intelectual. O Imparcial. Salvador, 6 de novembro de 1931.

[8] Pinto de CARVALHO. Bahia Intelectual. O Imparcial, Salvador, 29 de setembro de 1931.

[9] Martha OLIVAR. Em torno da Enquete Literária. Salvador, 22 de outubro de 1931.

[10] Id. Em torno de “O Jornal da Bahia”. O Imparcial. Salvador, 10 de março de 1932.

[11] Id. Ibid.

[12] Id. Ibid.